Foto: Getty Images via BBC
Tuesday, 26 de August de 2025 - 09:06:08
As 'supervacas' zebu e o papel do Brasil na pecuária global
BRASIL SE FIRMA COMO MAIOR EXPORTADOR DE CARNE BOVINA DO MUNDO

Na cidade de Uberaba (MG), cerca de 400 mil visitantes e quase 2,5 mil cabeças de gado participam anualmente da ExpoZebu, a mais importante feira dedicada à raça zebu. Esses animais, geneticamente aprimorados ao longo das décadas, são considerados a base da pecuária nacional e renderam ao Brasil a exportação de 2,9 milhões de toneladas de carne bovina em 2024.

A feira é palco de desfiles, julgamentos e leilões milionários. No ano passado, uma vaca chegou a ser vendida por R$ 25 milhões, enquanto um touro chamado Gabriel se tornou célebre por gerar 600 mil descendentes a partir de seu sêmen. Esses exemplares não vão para o abate: seu material genético é utilizado para fortalecer as futuras gerações. “A ExpoZebu é talvez a principal feira da raça no mundo”, destaca a fotógrafa Carolina Arantes, que documentou o evento por uma década.

A trajetória do gado zebu no Brasil, no entanto, é relativamente recente. Como explica o historiador Oscar Broughton, da Universidade de Londres, a pecuária começou com o gado crioulo trazido pelos portugueses no século 16. Esses animais, de menor porte, forneciam carne seca barata para alimentar populações escravizadas, mas não atendiam à demanda crescente das cidades nem ao mercado internacional. No final do século 19, com a globalização do comércio e a necessidade de expandir a produção para áreas tropicais, o país passou a importar zebus da Índia.

Entre 1893 e 1914, mais de 2 mil cabeças chegaram ao Brasil. Adaptados ao calor, às pragas e à escassez de pasto, os zebus rapidamente se tornaram dominantes. Surgiu, então, a raça nacional conhecida como Indubrasil. No início do século 20, o país já se destacava entre os grandes exportadores, superando rivais como Argentina e Uruguai durante as duas guerras mundiais, quando a demanda por carne e couro cresceu de forma explosiva.

Na década de 1970, a criação da Embrapa deu novo impulso à produção. Pesquisadores desenvolveram técnicas de correção de solo, introduziram novos pastos africanos e aperfeiçoaram a genética bovina. A fronteira pecuarista avançou sobre o norte do país, incluindo a Amazônia. Esse movimento consolidou a carne como produto central da economia brasileira, ampliando a influência política dos pecuaristas no Congresso. A chamada “bancada BBB” — boi, bala e Bíblia — passou a atuar como força relevante, aliando-se mais tarde ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Hoje, o Brasil lidera o mercado mundial, favorecido pelos baixos custos de produção. “Nossa carne é baseada no pasto, que é barato, e a mão de obra é competitiva em relação a outros países, como os Estados Unidos”, explica o professor Cássio Brauner, da Universidade Federal de Pelotas. Ele ressalta que o churrasco de domingo, com cortes como o cupim retirado da corcunda do zebu, tornou-se parte da identidade cultural do país.

No entanto, o avanço da pecuária traz impactos ambientais. O professor Marcos Barrozo, da Universidade DePaul, em Chicago, alerta para a emissão de metano pelas vacas e para o desmatamento provocado pela abertura de pastagens, especialmente na Amazônia. Por outro lado, o rápido crescimento dos zebus faz com que eles produzam mais carne em menos tempo, reduzindo proporcionalmente as emissões e o uso da terra.

A recente certificação do Brasil como território livre de febre aftosa abre novas perspectivas de expansão. E, diante das mudanças climáticas, a genética do zebu pode ser exportada como solução para outros países que buscam adaptar sua pecuária a climas mais hostis. “Esses animais difundirão a genética necessária para que outros países melhorem sua produção”, conclui Brauner.

Assim, a pergunta que move os pecuaristas ganha força: poderão as “supervacas” brasileiras alimentar o mundo? A resposta, ao que tudo indica, está cada vez mais próxima de ser afirmativa.

Texto/Fonte: G1