Foto: Alair Ribeiro/MidiaNews
Quarta, 16 de maio de 2018 - 13:33:04
“Até as pedras do Rio Cuiabá sabiam que tinha coisa errada lá”
Esquema milionário
Taques diz que tentou rescindir contrato entre Detran e empresa investigada em operação do Gaeco

O governador Pedro Taques (PSDB) afirmou que uma das razões de ter determinado auditorias nos contratos do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), no primeiro mês de seu mandato, foi porque imaginava a possibilidade de haver irregularidades em andamento no órgão.

Em conversa com a imprensa na segunda-feira (14), o tucano disse ter tomado todas as medidas possíveis, dentro do conhecimento que tinha antes do caso estourar na Operação Bereré e na Bônus, do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco).

“Até as pedras do Rio Cuiabá sabiam que tinha coisa errada no Detran. E nós tomamos as providências. Agora, não tínhamos os detalhes, assim como também não tinha o Ministério Público até antes de surgirem com a delação do ex-governador Silval Barbosa”, disse.

Taques voltou a afirmar que tentou rescindir o contrato firmado entre o Detran e a empresa EIG Mercados, responsável por prestar serviços de registro de financiamentos de contratos de veículos e principal alvo da operação.

“Quando assumimos o governo, editamos o decreto 02. Esse decreto determinou auditoria em todos os contratos, dentre eles os do Detran. Na nossa administração, em 2015, o presidente do Detran, Rogers Jarbas, e depois o Osnir, tomaram todas as providências necessárias nesse caso da EIG. Todos”, afirmou.

“Temos todos esses documentos, que estão relacionados àquele decreto. E existia, inclusive, uma ação na Justiça desde 2011 discutindo o contrato, que o Poder Judiciário não concedeu a liminar para romper. Portanto, nós fomos atrás de romper o contrato, e a ação foi ajuizada pelo MPE”, disse.

Questionado sobre a possibilidade de o caso afetar um eventual projeto de reeleição, este ano, Taques disse se preciso conhecer todo o teor das investigações do Gaeco.

“Eu não tenho essa avaliação, até porque não tenho conhecimento do que está no processo. A sociedade precisa conhecer o teor do processo. Eu sou daqueles que antes de chegar a uma conclusão, ouço os dois lados sino. O badalar dos dois lados do sino. Faço isso desde que sou procurador da república”, resumiu.

“Bônus”

A segunda fase da Operação Bereré resultou na prisão dos seguintes alvos: o deputado estadual Mauro Savi (DEM); o ex-secretário-chefe da Casa Civil, Paulo Taques e seu irmão Pedro Jorge Taques; os empresários Roque Anildo Reinheimer e Claudemir Pereira dos Santos, proprietários da Santos Treinamento; e o empresário José Kobori, ex-diretor-presidente da EIG Mercados.

De acordo com as investigações, entre os meses de julho e agosto do ano de 2009, quando Teodoro Moreira Lopes o “Dóia” ocupava o cargo de presidente do Detran, foi convocado para uma reunião no gabinete do deputado Mauro Savi. No local estavam presentes, além do parlamentar, Marcelo da Costa e Silva e Roque Anildo Reinheimer, ambos investigados no caso.

Na ocasião, Marcelo Silva e Roque Anildo teriam oferecido a Dóia a execução da atividade de registro junto ao Detran dos contratos de financiamento de veículos com cláusula de alienação fiduciária, de arrendamento mercantil, de compra e venda com reserva de domínio ou de penhor dizendo que apresentariam ao então presidente da EIG Mercados.

Conforme, o MPE, na ocasião a empresa se oferecia a formular contrato administrativo com o Detran para prestar o serviço de registro de contratos junto à entidade de trânsito. Na oportunidade, um dos sócios da empresa, a fim de garantir a prestação de serviços, teria se comprometido a repassar o valor equivalente ao pagamento de um mês às campanhas eleitorais do deputado Mauro Savi e do então governador Silval Barbosa.

Os promotores dizem que a promessa teria sido cumprida no valor de R$ 750 mil para cada um dos candidatos, logo após a assinatura do contrato.

Para que a empresa fosse a vencedora do edital, na época o antigo presidente do Detran determinou que a comissão de licitações do Detran confeccionasse o edital de licitação nos mesmos moldes que a empresa FLD Fidúcia - hoje EIG Mercados - já havia vencido no Piauí. Desde então, segundo o MPE, a empresa é responsável pelo pagamento de propinas a organização criminosa.

Consta nas investigações que após a assinatura do contrato administrativo, "Mauro Savi, Claudemir Pereira dos Santos, Teodoro Lopes e outros investigados se organizaram a fim de garantir a continuidade do contrato, formando uma rede de proteção em troca do recebimento de vantagens pecuniárias da parte da FDL, propina na ordem de 30% (trinta por cento) do valor recebido pela FDL do Detran repassado por intermédio de empresas fantasmas que foram criadas em nome dos integrantes da rede de proteção do contrato"

"Esquema que teve continuidade com a mudança de Governo e a participação de Paulo César Zamar Taques e seu irmão Pedro Jorge Zamar Taques", afirmou o MPE.

Os promotores explicam que no ano de 2015 - quando Silval da Barbosa deu lugar ao atual governador Pedro Taques -, ao ter informações do esquema de recebimento de propinas operado dentro do Detran, Paulo Taques e Pedro Zamar Taques - primos do governador - apropriaram-se do esquema de recebimentos,  com ajuda de Valter José Kobori.

Em depoimento colhido junto a um dos proprietários da empresa EIG Mercados Ltda, foi revelado ao MPE que após acertar os pagamentos com a antiga gestão Silval Barbosa a EIG Mercados contratou Valter Kobori como CEO (Chief Executive Officer). Desde então seria ele a pessoa responsável em receber pessoalmente a propina sob título de bônus pelos serviços pessoais prestados a empresa e repassar o dinheiro para Paulo Taques.

Segundo o depoimento as negociações foram feitas antes mesmo do resultado das eleições de 2014 onde Valter Kobori já havia combinado com Paulo Cesar Zamar Taques o auxílio para manutenção do esquema.

Texto/Fonte: Midia News - DOUGLAS TRIELLI