A chamada “farinha da felicidade” tem se espalhado pelas redes sociais como promessa de emagrecimento rápido e melhora da saúde, mas especialistas reforçam que não existe mistura mágica capaz de substituir uma alimentação equilibrada e cuidados com o estilo de vida.
Composta em suas versões mais simples por ingredientes como linhaça dourada, chia, aveia, gergelim e amêndoas, a receita ganhou novas adaptações que incluem farinha de maçã, de beterraba, psyllium, gérmen de trigo, maca peruana, ora-pro-nóbis e banana verde. Apesar do potencial nutritivo de cada item, nutricionistas e médicos explicam que, isoladamente, a combinação não gera perda de peso nem garante efeitos duradouros para a saúde.
O professor Bruno Gualano, do Centro de Medicina do Estilo de Vida da Faculdade de Medicina da USP, compara a moda a uma forma moderna de alquimia. Para ele, a falta de letramento científico faz com que as pessoas se deixem levar por “novidades vazias” que prometem bem-estar e felicidade, mas carecem de evidências sólidas. “Misturar vários ingredientes e vender como produto mágico é algo que remete a períodos pré-científicos”, avalia.
A nutróloga Isolda Prado, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), ressalta que alguns dos alimentos presentes nas misturas oferecem benefícios reais quando inseridos em uma dieta equilibrada. Ela cita, por exemplo, as fibras da aveia, banana verde e psyllium, que auxiliam na saúde intestinal; os antioxidantes presentes na beterraba e no ora-pro-nóbis; e as gorduras boas de chia, linhaça e oleaginosas, que podem contribuir para a saúde cardiovascular.
Ainda assim, há alertas importantes. Pessoas com doença celíaca devem evitar versões que contêm glúten, como gérmen de trigo e farelo de aveia não certificado. Indivíduos com predisposição a cálculos renais devem ter cuidado com alimentos ricos em oxalatos, como beterraba, chia e gergelim. Além disso, o excesso de fibras pode provocar desconforto intestinal, e as calorias elevadas de alguns ingredientes podem atrapalhar a perda de peso quando consumidas sem moderação.
Segundo recomendações nutricionais médias para adultos saudáveis, carboidratos devem representar de 45% a 65% das calorias diárias, proteínas entre 10% e 35%, e gorduras de 20% a 35%. A ingestão de fibras deve chegar a 25 g para mulheres e 38 g para homens, enquanto a de sódio não deve ultrapassar 2.000 mg por dia, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.
Gualano reforça que felicidade e saúde estão ligadas a fatores como alimentação balanceada, prática de atividade física, sono de qualidade e manejo do estresse, e não a um único alimento. Para os especialistas, a “farinha da felicidade” pode ser parte de uma dieta variada, mas jamais substitui os pilares de um estilo de vida saudável.