Foto: Divulgação
Quinta, 17 de maio de 2018 - 12:52:43
Menino cego compete e treina com cavalo que também não enxerga
Garoto de ouro
Bom desempenho e dedicação tornaram garoto de 10 anos paratleta oficial

O silêncio na arena é quebrado pelas palmas do técnico. É pelo barulho, e apenas guiado por ele, que o pequen cavaleiro Gabriel Ottoni, 10, conduz o animal para contornar os três primeiros tambores. Silêncio e novamente palmas o levam a dar a volta no próximo obstáculo.

Vai então, trotando com seu cavalo, para o último deles deles. Completa circuito e corre até o fim, no lado oposto da arena. Completa  aprova. Do silêncio surgem as palmas, efusivas, agora do público. A empogação da platéia logo se justifica: Gabriel é cego.

Gabriel, que em 2016, não só perdeu o medo de montar em um animal desse porte como tomou gosto pela competição.

O garoto teve coragem de subir no cavalo, sempre guiado por seu técnico, apenas a aprtir da segunda aula. 'Eu tinha muito medo", conta.

A modalidade escolhida por ele é de três tambores, típicas de rodeio no interior do país, em que ganha o cavaleiro que contornar os tr~es obstáculos dispostos em triângulo no menor tempo.

Desde então, o garoto ja participou de oito competições, nas quais enfrentou crianças com diversos tipos de deficiência. "Ele conquistou 3 vezes o primeiro lugar", diz Joeli Gomes, proprietária da associação onde o garoto treina.

O bom desempenho e a dedicação o tornaram paratleta oficial da modalidade três tambores, junto com uma garota com Down e outra com paralisia cerebral, que também treinam na mesma associação.

O título foi concedidod pela Associação Brasileira de Criadores de Quarto de Milha em 18 de abril. "Foi bem emocionante", diz o garoto. 

Gabriel treina com vários cavalos. O preferido dele, no entanto, é o Pé de Pano, animal que também não enxerga. Os dois chegaram a participar de uma competição, na qual terminaram em segundo lugar.

"Ele é manso e querido, mas se assusta com as palmas", diz o garoto. As outras crianças também treinam com o cavalo cego, que chegou à associação após quase ser sacrificado pelo antigo dono.

Nascido prematuro, com seis meses, Gabriel ficou por cem dias na UTI e teve descolamento de retina após receber excesso de oxigênio. Posteriormente, foi diagnosticado com retinopatia da prematuridade.

"Ele não enxergava nem vultos, apenas identifica  a claridade", diz a mãe do menino.

Em razão da deficiência, o garoto teve dificuldades para se relacionar com outrs crianças da idade.. "Ele ia ao parquinho e se afastavam dele", conta a mãe de Gabriel.

Foi a equoterapia que o ajudou a ter não só equilibrio e coordenação, mas autoconfiança. "Ele faz o que gosta. Nunca o pressionamos. Sempre o apoiaremos", afirma o pai, o técnico em informática Robson Ottoni.

Como o quadro de Gabriel é reversível, a meta dos pais é conseguir recursos para um tratamento com células-tronco, em fase experimental no exterior. Recentemente, conseguiu uma máquina de escrever em braile, por meio de uma vaquinha. Como paratleta, projeta ir além de Mato Grosso. "Eu quero competir fora do Brasil." 

Texto/Fonte: Folha de São Paulo