As mensagens atribuídas ao estudante Edcley expuseram, meses antes do Enem 2025, duas questões que mais tarde apareceriam na prova oficial sem sofrer anulação. Em resposta enviada nesta terça-feira (25), o Inep reiterou que não irá invalidar outros itens além dos já divulgados.
O episódio ganhou visibilidade depois que prints revelaram que, em março deste ano, Edcley compartilhou em um grupo de WhatsApp duas situações-problema que, posteriormente, surgiram quase idênticas no exame de novembro. A primeira tratava de probabilidade em lançamentos de dados; a segunda, de cálculos de concentração em soluções. Ambas foram consideradas válidas pela banca e permanecem no gabarito.
Segundo o próprio Inep, as perguntas correspondem aos itens de probabilidade — número 178 da prova azul (e equivalentes nas demais cores) — e à questão sobre solução com 99,90% de concentração — número 140 da prova azul. A autarquia afirmou que não houve comprometimento da integridade técnica do Enem 2025 e que as coincidências não configuram motivo para novas anulações.
A dinâmica pela qual Edcley teria tido acesso às perguntas envolvia o Prêmio Capes de Talento Universitário, que utiliza itens semelhantes a pré-testes empregados no banco de questões do Enem. Ele passou a incentivar a participação de universitários no concurso e, segundo as investigações, oferecia pagamentos mínimos para que eles memorizassem as perguntas e repassassem os conteúdos. Com esse material, montou um acervo utilizado em mentorias particulares.
As conversas mostram que, em 17 de março, Edcley indicou aos alunos que marcassem a resposta “125/216” caso encontrassem uma questão sobre lançamento de dados. Oito meses depois, o Enem apresentou exatamente esse cálculo como gabarito correto. No mesmo período, ele divulgou no grupo a situação da solução de 99,95% — que reapareceu na prova com a mesma estrutura numérica, apesar de pequenas mudanças na unidade de medida.
Após a aplicação oficial, Edcley comemorou os “acertos” no grupo. Em mensagens recuperadas pelos próprios alunos, ele resgatou seus envios de março e mencionou que “todos” teriam acertado os itens. Prints dessas conversas circularam nas redes sociais e foram citados pelo estudante em seus próprios stories publicados entre 17 e 18 de novembro.
O estudante, porém, negou qualquer conhecimento prévio sobre a inclusão das questões no exame. Em entrevista ao Fantástico, disse que as coincidências foram “pontuais” e que não teve acesso antecipado ao conteúdo final. O g1 já havia mostrado que outras seis questões também apareceram nos materiais distribuídos por ele antes da prova.
Em declarações nos últimos dias, o ministro da Educação, Camilo Santana, reafirmou que o processo do Enem segue normalmente, com os dois gabaritos já divulgados e o resultado final previsto para janeiro de 2026. Manuel Palacios, presidente do Inep, defendeu que não houve risco técnico de fraude e que nenhum candidato foi prejudicado.
Segundo o Inep, a eventual memorização de itens pré-testados “não compromete a integridade do exame”, já que o banco de questões reúne milhares de itens e apenas uma pequena fração é utilizada em cada edição. Por isso, a autarquia não vê necessidade de ampliar o número de anulações.