Foto: ILUSTRAÇÃO
Quinta, 07 de abril de 2016 - 13:49:40
O Boi Tropical da Embrapa: alternativa para a da pecuária Nacional
PECUIÁRIA
Nos cruzamentos entre raças bovinas para produção de carne com qualidade não usamos x (vezes) nem – (traço), usamos + (mais ou soma)

Nos cruzamentos entre raças bovinas para produção de carne com qualidade não usamos x (vezes) nem – (traço), usamos + (mais ou soma). Assim foi constituído o Boi Tropical: Nelore + Curraleiro Pé-Duro + Senepol + Angus (veja quadro a seguir), com o uso das mais poderosas ferramentas do melhoramento animal, o cruzamento e a seleção.

Raças Formadoras do Bovino Tropical

O principal objetivo desse trabalho (pesquisa) é reunir em um bovino composto as melhores características das raças formadoras, com vistas à produção de carne com qualidade em regiões quentes e inóspitas.

Nelore

Segundo a Associação de Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) o Nelore se adaptou muito bem às condições tropicais brasileiras, por possuir excelente capacidade de aproveitar alimentos grosseiros. Apresenta resistência natural a parasitas, devido às características de seus pêlos, que dificultam a penetração de pequenos insetos na superfície da pele ou que aí tentem se fixar. A pele escura, fina e resistente, dificulta a ação de insetos sugadores, além de produzir secreção oleosa repelente, intensificada quando os animais estão expostos ao calor. O Nelore é muito resistente ao calor devido à sua superfície corporal ser maior em relação ao corpo e por possuir maior número de glândulas sudoríparas. As características de seus pêlos também facilitam o processo de troca com o ambiente. Além disso, o trato digestório é 10% menor em relação aos dos bovinos europeus. Portanto, seu metabolismo é mais baixo e gera menor quantidade de calor. Os machos e as fêmeas apresentam elevada longevidade reprodutiva. As vacas apresentam facilidade de parto, por terem garupa com boa angulosidade, boa abertura pélvica e, principalmente, por produzir bezerros pequenos, o que reduz a incidência de distocia. Outras características das fêmeas são a excelente habilidade materna, oferecendo condições de desenvolvimento aos bezerros até o desmame; rusticidade; e baixo custo de manutenção.

Curraleiro Pé-Duro

O Curraleiro Pé-Duro foi uma das primeiras raças formadas no continente americano após a chegada de taurinos originários de Portugal a partir de 1534 no Brasil. Foi forjada no Semiárido Nordestino com aguadas escassas e distantes, pastagens grosseiras, temperaturas tórridas e ataques de parasitas e predadores (onças). Pelas mãos da seleção natural, apenas animais com genótipos privilegiados conseguiam sobreviver, produzir e deixar descendentes. Assim a raça se formou tendo como baluarte a resistência e adaptação a ambientes onde bovinos exóticos dificilmente sobrevivem. Qualidade inegável da raça, que sobrevive como nenhuma outra à inclemência do clima, à seca, aos pastos pobres e que é ideal para ser produzida em solos classificados como do tipo 5, aqueles que não se prestam a plantios agrícolas. Todavia os Curraleiros Pé-Duro respondem aos bons tratos e são muito produtivos com baixos insumos (inputs). Conforme a Associação Brasileira de Criadores de Bovinos Curraleiro Pé-Duro (ABCPD) e a Embrapa Meio-Norte as vacas e touros Curraleiro Pé-Duro são longevos, com vacas parindo e produzindo anualmente por mais de 20 anos. A raça posui várias aptidões, podendo ser usada para produção de carne, leite e trabalho. Resultados de pesquisas realizadas na Embrapa mostraram uma carne de excelente qualidade, macia, suculenta e saborosa. A raça Curraleiro Pé-Duro também apresentou melhor rendimento de carcaça, maior área de olho-de-lombo e maior proporção de carne de melhor qualidade (carne de 1ª) na carcaça que zebuínos. Foi comprovada a resistência/resiliência a algumas plantas tóxicas, como o cafezinho ou erva-de-rato, em experimento realizado na Universidade Federal de Goiás, quando todos os bovinos Nelore vieram a óbito.

Senepol

A raça Senepol de bovinos de corte foi desenvolvida na ilha caribenha denominada Santa Cruz (USA). Essa raça é proveniente de cruzamentos entre gado N'Dama, importado no final do século XIX do Senegal, e gado “Red Poll”, raça taurina europeia. O gado Senepol combina características de tolerância ao calor e resistência a insetos do N’Dama, com a natureza dócil, boa carne e alta produção de leite do “Red Poll”. Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Bovinos Senepol essa raça é uma excelente opção para acabamento de animais a pasto. Sua capacidade de pastoreio, temperamento dócil e carne macia são ingredientes necessários para o sucesso no programa de terminação de bovinos precoces. Tem comprimento, profundidade e largura necessários para se “colocar” carne na carcaça. Pernas curtas para o necessário deslocamento e cobertura sem o excesso de ossatura na carcaça. É naturalmente musculoso e com grande percentual de carne nas partes mais nobres.

Angus Vermelho

O Angus se destaca entre as raças taurinas por reunir um maior número de características positivas que lhe asseguram um excelente resultado econômico como gado de corte. Além de fertilidade, longevidade, precocidade, rusticidade e facilidade de parto, essa raça apresenta uma carne extremamente macia, que lhe garante uma posição de liderança na produção de carne com qualidade. O bovino Angus apresenta de 3 a 6 mm de gordura subcutânea (exigências europeias) e sua carne é marmorizada (tem gordura entremeada na carne), o que lhe confere a já famosa maciez e sabor. A perfeita e uniforme distribuição da gordura no tecido muscular proporciona um aspecto muito mais atraente e sabor singular. A importância dessa distribuição é exaltada quando da sua preparação: a gordura se derrete parcialmente pela ação do calor e impregna a parte magra, melhorando seu valor, tornando-a tenra e apetecível. Os mercados mais importantes do mundo, que abastecem os consumidores mais exigentes, alcançam ganhos comerciais superiores, valendo-se do que existe de melhor entre as raças bovinas de corte na atualidade.

Formação do Boi Tropical Brasileiro

A junção das qualidades das raças formadoras acima descritas no Boi Tropical tornarão a pecuária brasileira mais racional e sustentável pelo melhor uso de pastagens naturais e como componente animal nos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). A redução no uso de medicamentos e no consumo de grãos (soja e milho) elevarão a rentabilidade da atividade, a qualidade da carne e divisas para o País, principalmente em um cenário de aquecimento global.

Quando os zebuínos chegaram massivamente ao Brasil, em meados do século XX, existiam 12 raças Nacionais (Brasileiras, Locais, Nativas, Naturalizadas, conforme a preferência do leitor), sendo elas o Caracu, Igarapé, Pedreiro, Turino, China, Mocho Nacional, Lageana, Pantaneiro, Junqueira, Franqueiro, Curraleiro e Malabar. Com os cruzamentos que se seguiram de maneira desordenada, muitas vezes estimulados e financiados pelo poder governante, os rebanhos locais atingiram níveis críticos de sobrevivência, chegando à beira da extinção. O vigor híbrido (heterose) apresentado nos produtos resultantes daqueles cruzamentos foi mal-interpretado, tendo sido atribuído apenas à introdução do Zebu, desqualificando o pequeno e tardio bovino nacional.

Na pesquisa ora em evidência, foram utilizados diversos touros Curraleiro Pé-Duro em vacas Nelore para produção do F1 na Fase 1. Foi alcançado níveis de heterose em algumas características econômicas acima de 20 % em relação às gerações parentais. Foram avaliados o desempenho ponderal do nascimento aos 28 meses em pastagens naturais no Estado do Piauí, conjuntamente com contemporâneos Nelore e Curraleiro Pé-Duro durante sete anos consecutivos nos campos experimentais da Embrapa Meio-Norte. Os machos foram encaminhados ao abate para avaliações de carcaça e qualidade da carne. Já as fêmeas F1, após seleção das matrizes acima da média, foram encaminhadas à reprodução, em cruzamentos com Angus Vermelho ou Senepol para produção da progênie F2. Os melhores produtos machos de cada esquema foram cruzados com as fêmeas do outro esquema para produção do bovino composto Tropical (Quadro 1).

Quadro 1. Esquemas de cruzamentos para produção do Boi Tropical.

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As pesquisas encontram-se nessa Fase.

As pesquisas em andamento agora deixarão os Campos Experimentais da Embrapa e envolverão rebanhos privados como núcleos de formação, avaliação, seleção e propagação do novo genótipo pelo rentável agronegócio brasileiro. As pesquisas também continuarão em diversos sistemas de criação e terminação: a pasto nativo, iLPF, iLP (integração lavoura-pecuária), iPF (integração pecuária-floresta), pastagens melhoradas, pastagens irrigadas e em confinamento. As características a serem melhoradas e fixadas serão precocidade no ganho de peso e no acabamento da carcaça, rendimento de carcaça, qualidade da carne, adaptabilidade aos trópicos quentes e resistência ou resiliência à doenças e à ectoparasitas. Os melhores exemplares sempre serão selecionados para constituírem a próxima geração e a formação de uma raça tropicalmente adaptada para o Brasil e para todo o cinturão tropical do Planeta.

Texto/Fonte: Embrapa Meio-Norte