O fenômeno dos chamados “blogueiros CLT” — trabalhadores que compartilham nas redes sociais sua rotina profissional e conquistam audiência digital — vem ganhando força no Brasil, mas também despertando tensões com empregadores. A exposição que garante visibilidade e renda extra para alguns profissionais tem resultado, em muitos casos, em demissões motivadas por conflitos de imagem e de cultura corporativa.
A psicóloga Thamiris Castro, por exemplo, trabalhou quase dois anos em presídios no Rio de Janeiro e decidiu compartilhar curiosidades sobre sua profissão em vídeos que viralizaram no TikTok. Mais de um ano depois da primeira publicação, foi desligada em junho deste ano. Ela acredita que o uso das redes sociais influenciou a decisão, já que sua chefe passou a segui-la pouco antes da demissão. “Nunca recebi advertência. Se fosse um problema, poderiam ter conversado comigo antes. Teria ajustado os conteúdos, sem mostrar crachá ou citar casos específicos”, afirma.
Casos semelhantes ocorreram com a influenciadora e profissional de marketing Geovanna Pedroso, de 23 anos, que produzia vídeos sobre comportamento, moda e inovação desde 2019. Apesar de não expor seu trabalho nas redes, sofreu comentários pejorativos de colegas e, em setembro de 2023, foi desligada durante cortes de pessoal. Desde então, sua renda passou a depender exclusivamente da internet, marcada por instabilidade.
Especialistas em gestão de pessoas defendem que empresas passem a enxergar esses trabalhadores como aliados, não como ameaça. Para Leandro Oliveira, diretor da Humand no Brasil, a postura defensiva mostra falta de maturidade diante da era digital: “Está se desperdiçando uma força de trabalho que poderia ser um catalisador em áreas difíceis de alcançar. Se o colaborador já tem presença digital, por que não integrar isso à cultura da organização e remunerá-lo?”
O doutor em comunicação Dado Schneider lembra que o fenômeno não é novo, apenas ganhou novo formato com a expansão das redes sociais. Ele classifica os perfis de influenciadores CLT em três tipos: os que promovem espontaneamente a empresa, os que associam o nome da companhia à sua imagem pessoal e os que apenas seguem tendências. Segundo ele, muitas demissões decorrem de ressentimento e inveja interna: “Muitas vezes, o blogueiro tem mais visibilidade que colegas em cargos mais altos, o que incomoda”.
Outros casos mostram que a exposição pode abrir caminhos. O jovem Yuri Santos, ex-assistente de social media, perdeu o emprego após quase dois anos, mas usou a visibilidade conquistada para conseguir rapidamente uma vaga em outra marca do setor de beleza. Hoje, mantém uma rotina tripla: trabalho CLT, perfis pessoais e um projeto paralelo com amigas sobre cultura e moda.
Já Thamiris, após a demissão, atraiu novos pacientes que a conheceram pelas redes e passou a atender jovens que se identificam com seus vídeos. Também oferece orientação acadêmica e palestras, encontrando no ambiente digital novas fontes de renda.
Advogados e especialistas em RH reforçam que não há impedimento legal para que um funcionário CLT atue como influenciador digital, desde que não exponha dados sigilosos nem prejudique a imagem da empresa. Carolina Dostal, da ABRH-SP, recomenda cautela: nada de compartilhar telas de computador, reuniões estratégicas, fofocas ou críticas públicas ao empregador. Já a advogada Juliane Facó destaca que a chave está no equilíbrio: “O que não pode é comprometer a atividade principal nem gerar concorrência ou danos à empresa”.
Entre oportunidades e riscos, os “blogueiros CLT” escancaram o dilema das empresas em adaptar-se às transformações digitais. Para uns, são ameaça; para outros, oportunidade estratégica. Mas todos concordam: a fronteira entre vida profissional e exposição online nunca esteve tão em debate.